Há uma frase que ouvi em uma das palestras do Summit IA 2026 e que resume bem o momento que vivemos: a inteligência artificial é apenas uma ferramenta, e quando a base não está pronta, ela tende a potencializar os problemas em vez de resolvê-los. Passei dias imersos no evento, acompanhando desde sessões sobre arquitetura de agentes até discussões de governança jurídica e computação quântica. Voltei com uma convicção reforçada: para uma consultoria socioambiental, o que faz diferença na era da IA é menos a escolha do modelo e mais a forma de utilizá-lo, sustentada por governança e diligência.
Este texto é um convite a olhar a IA com a seriedade que o nosso setor exige, e termina com uma provocação a quem contrata consultoria ambiental.
O entusiasmo fácil e o trabalho difícil
É fácil se empolgar com a IA generativa. Em segundos, ela redige um texto, resume um relatório ou cria uma imagem. Essa facilidade, porém, alimenta uma ilusão perigosa: a de que bastaria usar o ChatGPT para se modernizar. Não é bem assim.
Uma das ideias mais repetidas no evento e que vale para qualquer organização, é que a IA generativa funciona de maneira muito diferente de uma calculadora. Em vez de devolver a resposta certa, ela entrega a resposta mais provável a partir dos dados com que foi treinada. Quando o resultado sai errado, o motivo raramente é a tecnologia em si; costuma faltar contexto, um dado confiável ou um processo por trás. Há ainda os casos em que ela erra com aparência de certeza, o que se convencionou chamar de alucinação.
Para a maioria das aplicações, um deslize desses não passa de um inconveniente. No licenciamento ambiental, o peso é outro. Um número inventado em um laudo, uma citação legal que não existe em um parecer ou uma informação equivocada em um estudo de impacto saem do terreno do inconveniente e entram no do risco, seja ele técnico, reputacional ou jurídico. Talvez por isso a conversa sobre IA, no nosso setor, precise começar justamente por onde quase ninguém gosta de começar: pela governança.
Governança não é burocracia, é o que viabiliza a IA
Em uma das sessões sobre organizações que adotam IA em escala, ouvi uma provocação direta: o conhecimento público vale cada vez menos, porque está ao alcance de todos nos mesmos modelos. O que distingue uma organização é o conhecimento que só ela tem, e a capacidade de governá-lo. Numa consultoria, esse acervo é o nosso ativo mais valioso. São anos de pareceres e estudos, a vivência com a jurisprudência dos órgãos ambientais, as lições de campo e o domínio técnico dos analistas mais experientes.
Transformar parte desse conhecimento, e de algumas rotinas, em fluxos apoiados por IA, ou mesmo em agentes capazes de executar tarefas, é uma possibilidade concreta e animadora. Ela vem, porém, com uma condição que se repetiu ao longo de várias palestras: só funciona sobre uma base de dados governados, processos bem definidos e revisão humana. Faltando isso, automatizar significa apenas errar mais depressa.
Saí do evento com uma ordem de prioridades que parece óbvia, mas que muita gente inverte. Tudo começa pelo problema, e não pela ferramenta: a pergunta certa não é qual a melhor IA, e sim qual problema do negócio se pretende resolver. Boa parte das necessidades, aliás, se resolve com automação simples, sem IA alguma. Em seguida vem o cuidado de automatizar aquilo que já funciona, porque a tecnologia não corrige um processo quebrado; ela apenas amplia o que encontra, e um processo confuso, uma vez automatizado, vira um problema mais rápido. Os dados sustentam tudo isso, como uma espécie de combustível: sem informação estruturada e confiável, nenhum agente entrega valor. Acima de qualquer etapa, permanece a revisão humana, porque a IA potencializa quem já domina o assunto, sem nunca substituir o julgamento de quem sabe dizer se o resultado faz sentido.
Esse último ponto merece atenção especial. Em um dos workshops, ficou evidente que o erro de um agente de IA vai além de um texto equivocado: ele se materializa em uma ação no mundo real. Um e-mail que vai para o destinatário errado, uma reunião agendada no dia que não era, um arquivo salvo na pasta errada. Por isso, ao delegar tarefas a agentes, a curadoria humana deixa de ser recomendação e se torna requisito.
Diligência: a IA já é regulada pela responsabilidade
Talvez a sessão mais importante para o nosso setor tenha sido a jurídica, e o recado dela foi tão claro quanto incômodo: dizer que a IA ainda não é regulada é um mito. Mesmo sem uma lei específica plenamente em vigor, a responsabilidade civil já alcança o seu uso. Pela lógica da responsabilidade objetiva, quem causa dano no exercício de uma atividade de risco tem o dever de repará-lo, independentemente de culpa. Usar uma ferramenta tecnológica de forma descuidada numa decisão técnica pode, sim, configurar negligência ou imprudência.
Na prática, isso nos cobra alguns cuidados. O primeiro é saber exatamente quais ferramentas circulam na empresa e homologá-las, para conter o chamado shadow AI, o uso descontrolado de soluções por cada área. Há também o dever de proteger os dados sensíveis de clientes e de processos de licenciamento, o que passa por jamais inserir informação sigilosa em ferramentas gratuitas e por respeitar a LGPD e o sigilo contratual. Some-se a esses pontos a avaliação do impacto de aplicações que afetam terceiros, batizada pela regulação em construção, no Brasil e na União Europeia, de avaliação de impacto algorítmico. E talvez o mais decisivo de todos: documentar o que se faz. Agir com cuidado não basta; é preciso conseguir provar que o risco foi identificado, que um controle foi adotado e que a revisão humana se manteve. No direito, documentação é defesa.
No fim, a diligência funciona menos como freio e mais como a condição que permite inovar com segurança jurídica.
O Grupo Lago Azul e a nossa escolha
No Grupo Lago Azul, fizemos uma opção consciente: usar a IA para potencializar o trabalho, sem renunciar ao nosso julgamento. Na prática, isso quer dizer estruturar governança, cuidar dos dados, redesenhar processos antes de automatizá-los, capacitar a equipe e manter as pessoas no centro das decisões. É enxergar a IA como a ferramenta poderosa que ela é, sem perder de vista que a responsabilidade técnica e jurídica continua inegociável.
Seria pretensioso afirmar que já dominamos tudo isso. Não dominamos, e preferimos dizê-lo com transparência: há desafios pela frente, e os encaramos com naturalidade. Mas também não partimos do zero. Já estamos reestruturando o nosso Sistema de Gestão Integrado para responder a essa nova era, e o fato de mantermos políticas consolidadas de segurança da informação e de proteção de dados, alinhadas à LGPD, nos coloca alguns passos à frente nesse percurso, porque boa parte da fundação de governança que a IA exige já está de pé. Temos revisitado os nossos processos, um a um, para aprimorá-los à luz dessas tecnologias. E mesmo a decisão de participar de um evento como esse, ouvindo, questionando e trazendo aprendizado para dentro de casa, faz parte desse esforço.
O que nos orienta é a direção. Mais do que adotar tudo, ou adotar rápido, queremos adotar com critério, aprendendo no caminho e ajustando o passo conforme avançamos.
Uma provocação para quem contrata consultoria
Termino com a provocação que prometi, dirigida a quem contrata serviços de consultoria ambiental, embora ela valha para qualquer contratante de serviços técnicos. Na era da IA escolher um prestador deixou de ser uma decisão apenas sobre preço, prazo e portfólio. Entrou na conta uma pergunta nova, cada vez mais difícil de ignorar: como esse prestador está se estruturando para a era da IA?